- A Antonio Brasileiro
- Célula do todo deslocada
- obra o poeta noite adentro.
- Faz o seu trabalho inutilmente
- sabe que é inútil seu trabalho.
- Pária social, mal necessário,
- contador de estrelas, rodeado
- pela solidão onipresente.
- Servo da palavra, nada
- que Platão previu como ameaça,
- mais parece um ser em extinção.
- Peixe fora d’água, ave sem asa,
- capaz de voar mesmo trancada
- das grades da coisificação.
- Sabe ser inútil seu trabalho
- sabe que bem poucos o lerão
- sabe que insuspeitam que entre grades
- muito menos vêem e verão
- réus inconscientes que são massa.
- Sabe que é passado
- mas não passa, pois cada
- poema é uma faca
- e outros poetas nascerão.
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A Carlos Machado
- Toda palavra tem gosto.
- Rubiginoso: exemplo
- do sabor indefinido
- das crias de Pandora
- que nascem para o exílio.
- Toda palavra tem pele.
- Mazombo é derme
- de nume derrotado,
- escalão de beirada,
- epiderme e escória.
- Toda palavra é sonora.
- Imbricação retumba
- eco de todos os tons
- rufando os tambores
- milhões de sonoridades.
- Toda palavra é imagem.
- Dióptrica mais parece
- nome de personagem
- de dinastias longínquas
- selada por esfinges.
- Toda palavra tem cheiro.
- Mandrião, por exemplo,
- aroma de virgindade,
- eco de todos os tons,
- nome de personagem
- das crias de Pandora:
- nume derrotado
- pelo sentido precário
- que adiciona.
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- A Donizete Galvão
- Traduz, Giordano, o eclipse aos barqueiros. Para que pesquem a unidade dos contrários.
- Em Minas eu não traduzo nada. Apenas miro archotes do ocaso, a sombra enlutando o dia, os pássaros nos galhos.
- Excita, Giordano, a máscara do baile, e beija as putas do gueto.
- Aqui nada me excita, só o medo.
- Os teus olhos falam, Giordano, aos que à língua cortaram. E condenam a quem a sentença exclamou.
- Eu aqui me condeno, sem sentença, a cortar rumores que calo.
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A Glauco Mattoso
- por saber-me eu tão indolente,
- eu, por indolente me saber,
- respondo cartas que jamais lerei
- e leio cartas que jamais respondo
- meus amigos, certo, me perdoam,
- mas que amigos certos devo ter
- se para perdoar deviam ler as cartas
- que não dito ao papel; por certo
- juízos mais estranhos fará quem
- receber as cartas que respondo
- mas não leio (espanto, frescor
- da novidade, assombro, vida enfim)
- as cartas previsíveis não assim, por caros
- que sejam os amigos; então refuto
- outras: ladrões, anacoretas, assassinos,
- jamais acusarão o meu envio
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Ao Guto, Knorr
- Eu me vejo assim
- desabrigado
- a pedir notícias
- de mim mesmo.
- Eu saí: não sei
- como voltar.
- Me assombro
- diante do espelho:
- miro os olhos
- de um estrangeiro
- nos meus olhos.
- A ação se opõe
- a meu desejo,
- o que falo
- só me contraria,
- o que penso
- escondo de mim mesmo.
- Num império
- rei aprisionado
- trocaria pela do vassalo
- minha sorte.
- Quando enfim
- o dia será claro
- e, ao pousar o sol
- em meu cabelo,
- me acordará a realidade?
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A Francisco Álvarez Velasco
- na palma da mão
- vias desertas
- trilhas apartadas
- por atalhos
- na palma da mão
- seixos abrolhos
- sapadas trincheiras
- territórios
- vagos
- minados pela posse:
- cercas fincadas
- entre aceiros
- demarcando o chão
- pênsil e frágil
- a herança
- mórbida
- dos ossos
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A Roberval Pereyr
- Como eduzir
- salvação? A seiva
- mal azeita
- da raiz ao vaso.
- Aridez reboa
- água tão escassa
- aos despojos servidos
- para o fausto:
- pasto de condores
- e de serpes.
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A Imah Théres
- quem tem a medida do tempo
- quem tem a receita do pão
- quem tem a dosagem certa
- de água, fermento e sal,
- massa em cozimento
- que do forno em combustão
- pronta para o consumo
- ultrapasse o processo
- de uma simples digestão
- e além do corpo sacie
- a voracidade da alma
- que a um tempo sem medida
- degusta pelo olfato
- sem poder absorvê-lo
- pois se pensa dominá-lo
- o tempo a domina primeiro?
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Aos queridos amigos dos tempos de Abre alas e d’lira
- o barco zarpa
- ao mar longe –
- no ar suspenso
- o aceno paira
- mãos acenando
- mesmo ausentes
- como se in loco
- ainda acenassem
- quem parte leva
- de quem fica
- ficando um pouco
- de quem parte
- e na distância
- dias noites
- param no tempo
- e o tempo pára
- mas o aceno permanece
- e quando ao cais
- retorna o barco
- completo o gesto
- ao tempo acorda
- sem despedida
- e sem espera
- não mais acena
- a mão que abraça
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A Salomão Sousa
- Assina a ruga
- essa rude instalação:
- no corpo alquebrado
- o rosto precário
- e a rua
- repleta de buracos.
- E avenidas cortam,
- novas, ao rincão
- da pele, antes plana,
- uma sucessão de quebra-molas.
- Mil atalhos surgem
- desde os cílios
- e ladeiras íngremes
- entornam
- um rio de lágrimas
- dos olhos.
- Eis o tempo
- e urge no meu rosto
- a vital parcela do imposto
- que esse mesmo tempo
- agora cobra.
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A Domingos Pellegrini
- A maior parte do tempo
- sou uma entidade
- que pensa ser, parecendo.
- Respondo cartas, invento
- muitas necessidades
- prescindíveis, quase sempre.
- Sinto-me em minha casa
- sendo que sou inquilino:
- eu possuo e não tenho
- de cada metro quadrado
- nem um bilhão de milímetro
- da consciência do dono.
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- Álamos no horto do teu corpo
- melenas ao vento, como tufos.
- Pele lirial dos seios muitos
- outeiros nos lábios de narciso.
- Do terreno és a aradura
- que o falo às leiras do solo
- deposita em gotas no abismo.
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